Cidade histórica de SP foi destruída pelas chuvas no início do ano. E uma equipe ensina as pessoas a aproveitarem ao máximo os alimentos.



ISABELA ASSUMPÇÃO São Luiz do Paraitinga, SP


Dia de sol e muito trabalho em São Luiz do Paraitinga, no interior de São Paulo. No dia 1º de janeiro de 2010, a cidade amanheceu debaixo d’água. O centro histórico ficou destruído. A igreja matriz desabou. Do mercado municipal, só se via o teto.

E a história de cada morador ficou marcada pela inundação. “A gente não tem mais cidade, na verdade. A gente não tem mais nada. A gente perdeu tudo”, conta a dona de casa Laura Aparecida da Rocha.

A grande enchente deixou um rastro de destruição e um desafio: como dar teto e comida a tantas famílias desabrigadas? Prefeitura e voluntários se mobilizaram para garantir ao menos um prato de arroz com feijão para todos.

Maria Morena trabalhou a vida toda como cozinheira. “Eu amo cozinhar. Eu adoro, seja coisa simples, como arroz, feijão. Mas eu gosto de cozinhar”, revela. E esse talento ajudou as pessoas na tragédia da inundação. “Na minha casa, ficou mais de cento e poucas pessoas, durante o dia. E eles vinham para comer”, conta a cozinheira.

Logo que a enxurrada passou, chegou à cidade o ônibus do Serviço Social da Indústria (Sesi). Nele, uma equipe especializada ensina as pessoas a aproveitarem ao máximo os alimentos, até a casca e o talo. Receitas saborosas, que garantem nutrientes importantes para a nossa saúde.

Maria Morena participou da primeira turma. Agora, ela cuida do almoço e do jantar em um abrigo, onde 72 pessoas estão dividindo o mesmo teto, a mesma cozinha, a mesma comida.

Era para a cozinheira ir ao local para fazer o almoço e fazer o jantar, mas ela está ficando o dia inteiro. “Porque eu adoro eles. A maioria sabe. Meu horário de almoço é de meio-dia às 15h, mas eu fico aqui. A gente faz um bolo, bolo de fubá, arroz doce. Daí eu animo eles também”, declara.

No abrigo onde trabalha Maria, reencontramos a dona de casa Laura Aparecida da Rocha. “Caiu o muro. Daí a minha casa foi inteirinha também. Ela está condenada, não dá para entrar mais”, diz. “No começo, foi difícil enfrentar todo mundo, mas agora todo mundo já é da família. Todo mundo lava a roupa, fica na cozinha, tomando café. Então, agora, todo mundo virou uma família”.

Já é quase meio-dia, e o falatório é sinal de mais um mutirão na cozinha. O almoço é feito a muitas mãos e para todos os gostos. Cada um faz uma parte. Todos, de todas as idades, são bem-vindos ao local. Mas a regra é clara: para entrar na cozinha, tem que usar a touca que ganharam no curso no ônibus.

O prato principal é uma torta de frango. A massa é verdinha, feita com folhas inteiras de couve, mas pode ser com qualquer outra folha ou talo que você tenha em casa. É só bater no liquidificador.

O purê de batatas tem jeito de salada, com cenoura ralada e mais talos de couve bem picadinhos. “No talo da couve, a gente tem o cálcio, mais até do que na folha da couve, temos também um pouquinho de proteína, mas é menos do que em uma carne, por exemplo, e temos bastantes fibras também, mais do que na folha”, explica a nutricionista Lícia Sanchez Vendruscolo, do SESI.

A sobremesa é creme de limão. A casca tem que ser bem raspadinha.

O ônibus do Sesi já passou por mais de 300 cidades e mais de um milhão de pessoas já estão apreciando essas receitas. O ônibus vira sala de aula que se transforma em uma cozinha. Hoje é o último dia do curso na cidade.

As alunas vão aprender a receita daquele creme de limão que o pessoal do abrigo fez para a sobremesa.

O segredo é aproveitar o alimento todo. Não se trata de reaproveitamento ou de usar coisas que estavam no lixo. É assim: para o quibe de abóbora, você usa a polpa. Para a salada, você coloca a casca, raladinha e bem temperada, riquíssima em fibras.

O maracujá é recheado com carne moída, mas você só usa aquela parte branquinha. A polpa vai para o suco da horta, junto com limão e couve. “Tem o gosto do maracujá. Não dá para saber que tem couve”, comenta uma jovem.

A dona de casa Eliana Batista experimenta as receitas e aprova. “Está uma delícia. Tem muitas coisas que a gente não sabia, a gente começa a aprender agora. A vida é assim”, aposta.

A dona de casa Maria Rosali Guimarães está otimista quanto ao orçamento do mês: “agora vai dar para sobrar, bastante até. Vamos comer melhor e mais barato”.

A torta sai do forno e logo vão chegando os acompanhamentos. Natália Guimarães, de 8 anos, revela que gostou da comida e que não sabia que havia talo de couve no prato.

Parece que a receita deu certo. Laura vai levar o livro de receitas para a casa nova. E a cidade continua em obras.

A dona de casa Laura Aparecida da Rocha diz que vai continuar cozinhando segundo o livro e explica a diferença entre ‘colher de sogra’ e ‘colher de vó’: “uma colher rasa é a ‘colher de sogra’. Uma colherzona é a ‘colher de vó’. Na hora em que ela falava isso, todo mundo dava risada. Foi muito legal”.

Foi, com porções generosas de solidariedade e muitos nutrientes, que essa turma aprendeu muito mais do colocar mais água no feijão.

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