04/12/2008
Em Campos, esgoto e óleo de cozinha usado viram combustível
Vinicius Zepeda
César Ferreira

O pesquisador Luiz Guilherme da Costa Marques e o biodiesel de óleo de fritura, já pronto para ser utilizado


A busca de combustíveis alternativos à poluição do petróleo e de uma solução para o acúmulo de resíduos não-aproveitados estão na ordem do dia das discussões cotidianas. Em todos os cantos do mundo, pesquisadores, membros da sociedade civil organizada e autoridades têm debatido a exploração racional dos recursos naturais e, conseqüentemente, o desenvolvimento sustentável. Em busca de soluções para essas questões, a empresa Eco 100 Desenvolvimento Sustentado Ltda., com o apoio da FAPERJ, tem desenvolvido métodos que prometem soluções para ambos os problemas. Por meio do edital de Inovação Tecnológica no Estado do Rio de Janeiro, a empresa, em parceria com a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro-Rio), desenvolve o projeto Biodiesel de Óleos de Fritura Residuais do Município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, com a participação do poder público local, para a produção de biodiesel – menos poluente que o diesel comum.

Segundo Luciano Basto Oliveira e Luiz Guilherme Costa Marques, sócios da empresa e também pesquisadores do Instituto Virtual de Mudanças Globais do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Ivig/Coppe), da UFRJ, além da vantagem natural que o biodiesel já possui de ser menos poluente que os combustíveis do petróleo, tanto o método produzido por meio do óleo de fritura quanto pela caixa de gordura, possuem vantagens até em relação aos tipos mais comuns de biodiesel – aqueles produzidos a partir de plantas oleaginosas, como cana-de-açúcar, mamona, girassol, dendê, entre outras. "Estes métodos fazem cair por terra a tese de que combustíveis alternativos dependem exclusivamente da utilização de plantas para sua produção, cujas áreas de cultivo poderiam ser utilizadas para agricultura focada em alimentos", explica Oliveira. Outro ponto destacado pelos pesquisadores é a abundância com que ambos os recursos podem ser encontrados em qualquer lar ou estabelecimento comercial de qualquer cidade do país.

Eles também ressaltam a necessidade de alteração da prática comum no comércio popular de produtos fritos, como salgados e pastéis que, entre outros, em grande parte dos casos utiliza óleo reaproveitado. "Esta prática é extremamente nociva à saúde de quem consume estes produtos. O óleo comestível reaproveitado libera uma substância tóxica, chamada acroleína, que interfere no funcionamento do sistema digestivo e respiratório, de membranas, mucosas e pele, e pode até provocar câncer", advertem os pesquisadores. "Por enquanto a adesão à coleta ainda é pequena. Temos recolhido em torno de 600 litros por mês, enquanto o volume estimado de utilização de óleo de fritura na cidade é de algo em torno de 40 mil litros", lamenta Luciano. Nesse ponto, segundo o pesquisador, é essencial que poder público e órgãos de fomento à pesquisa, como a FAPERJ, entendam o projeto como uma política pública e um modelo de produção de combustível alternativo a ser perseguido.

No acordo estabelecido, a Uenf cedeu a planta de biodiesel (equipamentos para conversão dos óleos vegetais usados em biodiesel) e realizou testes de qualidade; a Pesagro-Rio disponibilizou instalações com equipamentos e forneceu eletricidade e água, enquanto a prefeitura de Campos estimulou, por meio da Secretaria de Promoção Social, a separação de óleo vegetal usado, junto a grandes geradores e a residências em geral. A coleta foi realizada por uma empresa que presta serviços à cidade na gestão de resíduos. O combustível alternativo já foi testado e vem sendo utilizado com eficiência por um ônibus da prefeitura local em uma mistura de 5% no diesel comum.

O novo combustível diminui o consumo de óleo diesel, reduz custos financeiros e as emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa. A economia desses recursos foi empregada num fundo, administrado pela prefeitura, que tem como objetivo manter cursos profissionalizantes para a população de comunidades carentes. "Nesse ponto, está sendo de extrema importância o trabalho de convencimento dos moradores em juntar o óleo utilizado em garrafas pet para que a prefeitura os recolha nos dias marcados. Este trabalho é demorado e o custo é alto, devido à necessidade de mudanças na mentalidade da população, acostumada a jogar o óleo usado nos ralos e pias das casas, que acaba por poluir as águas", explicam os sócios da empresa. Eles acrescentam que cada litro de óleo jogado no ralo polui um milhão de litros de água potável. "E veja só que vantagem: um litro de óleo comestível usado, se não for jogado na água, além de evitar a poluição, ainda é capaz de produzir a mesma quantidade de biodiesel. Ou seja, todo o resíduo é aproveitado", explica Oliveira.

Já a transformação do material disponível na caixa de gordura do esgoto sanitário de Campos em biodiesel – ou seja, uma etapa antes de chegar à estação de tratamento – ainda está no início. O projeto Biodiesel de Gordura de Esgoto com Usina Paga por Carbono foi aprovado recentemente no relatório preliminar do Programa Pappe Subvenção-Rio Inovação, da FAPERJ, em parceria com a Finep, e aguarda a liberação de recursos para começar a ser tocado. Como a parceria da Eco 100 Desenvolvimento Sustentado Ltda., está sendo um sucesso: a concessionária de tratamento de esgotos – parceira do projeto de aproveitamento de óleo usado – já assumiu o compromisso de apoiar este segundo projeto, enquanto a prefeitura propôs-se a sugerir à nova administração que expanda o sistema de coleta de óleo usado e estimule o segundo projeto.

Testes laboratoriais já definiram a viabilidade e eficiência do novo produto. Os sócios da empresa mostram-se bastante entusiasmados e esperam que o sucesso de ambos os combustíveis possa ser copiado em outras cidades do estado e, quem sabe, em todo o país. “Este trabalho sendo realizado em comunidades como as do entorno da Ilha do Fundão, como o Complexo da Maré, Manguinhos, Alemão e Complexo da Penha, pode gerar oportunidades para a melhoria da qualidade de vida nestas áreas”, explicam. “E o potencial de toda a cidade do Rio de Janeiro na produção mensal de óleo de fritura então, que é enorme, algo em torno de 500 mil litros por mês?”, vislumbram os pesquisadores.

Fonte:
http://www.faperj.br/boletim_interna.phtml?obj_id=5116

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